Da Semente ao Plantio: O gargalo que ameaça a restauração da Mata Atlântica
Da Semente ao Plantio: O gargalo que ameaça a restauração da Mata Atlântica
Da Semente ao Plantio: O gargalo que ameaça a restauração da Mata Atlântica
Descompasso na comunicação entre quem produz mudas e quem planta faz com que apenas 20% da capacidade dos viveiros chegue ao campo; Copaíba propõe ações de planejamento para otimizar o setor.
A restauração ecológica é uma das melhores ferramentas para combater os efeitos das mudanças climáticas, conservar recursos hídricos, proteger a biodiversidade e garantir a nossa sobrevivência no planeta. A Associação Ambientalista Copaíba, assim como muitas outras instituições, trabalha com foco na missão de conservar, restaurar e proteger a Mata Atlântica, e percebeu, ao longo dos anos, que um dos principais problemas não está na falta de terras, ausência de tecnologias ou falta de recursos, mas sim na falha de planejamento entre os produtores de mudas, que são a base da teia de restauração, com os plantadores, que são o topo desta teia.
A Copaíba vivencia essa realidade a partir de uma perspectiva privilegiada, pois atua como produtora de mudas nativas em seu viveiro e como executora de projetos de plantio no campo. Essa atuação nas duas pontas da teia da restauração, permite à Copaíba entender o gargalo entre a produção de mudas e o plantio efetivo.
De acordo com Flávia Balderi, secretária executiva da Copaíba, e responsável pelo Viveiro Copaíba, os viveiros sentem grande dificuldade de planejar a produção de mudas pela falta de alinhamento com os potenciais compradores. “Precisamos sensibilizar os compradores para que apresentem suas demandas aos viveiros com mais antecedência. É importante sabermos quantas mudas teremos que entregar no início da temporada de plantio”, afirmou Flávia.
Capacidade de produção x total de vendas
Enquanto a sociedade debate a necessidade urgente de restaurar milhões de hectares para equilibrar nosso ecossistema, descobrimos que o problema da restauração não é falta de sementes, mudas, terra, recursos financeiros e nem equipes especializadas. Segundo dados consolidados de 2024 pela Associação Nativas Brasil, a qual a Copaíba é membro desde sua fundação, a estrutura instalada dos viveiros brasileiros têm alta capacidade de produção, mas opera muito abaixo devido a falhas no processo de comunicação entre produção e plantação.
De acordo com Iara Borges, secretária executiva da Nativas Brasil, “com base no diagnóstico da Silva e Nativas Brasil: ‘Viveiros do Brasil: Onde começa a restauração ecológica’, os dados de 60 viveiros associados da Nativas Brasil, apresentam capacidade de produzir aproximadamente 190 milhões de mudas por ano, mas em 2024 foram produzidas 60 milhões, e do total produzido, apenas 40 milhões foram comercializadas, ou seja, apenas 19,7% da capacidade total instalada”. Flávia lembra que estes números podem ainda ser bem maiores, se levar em conta os viveiros que não estão nos dados da Nativas.
Mas a responsável pelo Viveiro Copaíba apontou ainda que parte do problema são os pedidos de mudas no início do período de plantio. “Os pedidos costumam chegar em outubro e novembro, já no início do período de chuvas, e dependendo do tamanho do pedido e das espécies, só conseguimos entregar no final da estação de chuvas, o que acaba inviabilizando o plantio”, afirmou Flávia Balderi, que disse ainda que a produção eficiente e de qualidade para um viveiro, depende diretamente da antecedência com que os projetos de plantio fazem os seus pedidos.
A produção de uma muda nativa tem um processo complexo e rigoroso para garantir qualidade, que vai da coleta de sementes, quebra da dormência, germinação, repicagem e rustificação, até que esteja pronta para o plantio. “Para mudas pioneiras e de crescimento rápido como a Mutambo e Aroeira-pimenteira precisamos de 60 a 90 dias, enquanto espécies de diversidade e clímax, como Peroba-rosa e Jequitibá precisam de pelo menos 6 a 7 meses para estarem prontas, por isso precisamos melhorar nossa comunicação com os produtores para garantir um melhor planejamento e garantir o máximo de mudas com diversidade florística e genética à disposição na época do plantio”, disse Flávia Balderi.
Ações estratégicas para resolver o problema
A Copaíba esteve presente na SOBRE 2026 – VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica, realizada em julho, em Brasília, e discutiu, junto com outras instituições, a importância de ações para equalizar capacidade produtiva com a demanda por reflorestamento. Entre as ações que a Copaíba considera importantes estão a antecipação do calendário de encomenda, que prevê que proprietários rurais e executores de projetos de restauração ecológica organizem seus cronogramas de plantio com antecedência de 6 a 8 meses em relação ao período das chuvas, permitindo que os viveiros consigam planejar a entrega de todas as espécies necessárias. A consolidação de contratos de fornecimentos futuros, que garante segurança financeira ao Viveiro e permite planejamento na produção. O fortalecimento de cooperação entre viveiros, que garante a troca de informações entre os viveiros parceiros, articulando controle de estoque para garantir diversidade de espécies para os compradores. E campanhas permanentes de sensibilização e capacitação para que toda a teia de restauração substitua a cultura do imediatismo por uma cultura de planejamento ecológico.
Planejamento da restauração
A restauração ecológica, não só da Mata Atlântica, mas de todos os biomas precisa de planejamento para se tornar real. Com uma capacidade dos viveiros brasileiros de produzir quase 190 milhões de mudas por ano, temos uma oportunidade concreta para acelerar a recuperação de novas áreas, de nascentes, APPs e Reservas Legais. E para isso, a Associação Ambientalista Copaíba convida proprietários rurais, gestores públicos, empresas e consultores ambientais a transformarem sua relação com a teia da restauração ecológica. Planejar o plantio com antecedência é uma decisão simples, que transforma totalmente a teia da restauração, otimizando custos, garantindo qualidade das mudas e assegurando que os projetos de restauração se tornem as florestas de amanhã.
Copaíba
A Associação Ambientalista Copaíba é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), sem fins lucrativos, com sede no município de Socorro (SP), que atua desde 1999 com a missão de conservar e restaurar a Mata Atlântica nas bacias dos Rios do Peixe e Camanducaia. Presente em 19 municípios dessa região, a Copaíba desenvolve ações integradas nas áreas de política públicas, educação ambiental, produção de mudas nativas e restauração ecológica promovendo a reconexão das pessoas com a natureza e contribuindo para a proteção dos recursos naturais, em especial da água e da biodiversidade.
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